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"A vida tem caminhos estranhos, tortuosos às vezes difíceis: um simples gesto involuntário pode desencadear todo um processo. Sim, existir é incompreensível e excitante..." (Caio F. Abreu)

sábado, 30 de abril de 2011

Devaneio na manhã gelada de Curitiba...


Boa noite pessoas ! Estava eu no ponto de ônibus próximo de casa, quase seis da matina (noite ainda, os pássaros cantando a plenos pulmões). Não resido em um lugar muito violento, apesar de termos algumas ocorrências de furtos em estabelecimentos comerciais próximos, mas todo cuidado e atenção são poucos, principalmente quando estamos sós. Aproxima-se um rapaz, negro, que eu nunca havia visto pelas imediações. Coincidentemente, eu estava "mexendo" em minha bolsa de trabalho (faço isso diariamente para checar se está tudo nos conformes), e com o estilete que utilizo para "merchandising" nas mãos. Ato contínuo, o elemento me diz : - Calma Senhor, não sou ladrão não, sou trabalhador, guarda isso...

Olhei para ele e comentei que não estava me "armando" para um eventual assalto e, sim, verificando meu material de trabalho. Ele, ainda desconfiado, seguiu dizendo em voz alta : - Sou ladrão não, sou trabalhador, não é porquê sou negro que sou assaltante...Só que aquilo efetivamente me deixou nervoso, porquanto a situação estava esclarecida de minha parte e, o cara ali ao lado, retrucando ainda...Além do mais, não sou racista ou preconceituoso, ao contrário...Minha "segunda Mãe", Tia MARIA, era negra, e uma das melhores e "maiores" MULHERES que conheci em toda minha vida. Quando o ônibus chegou, ele embarcou primeiro, e desceu alguns pontos depois...nesse percurso, mais duas pessoas entraram no ônibus. Após ele descer, um outro passageiro comentou com o cobrador : - Esse cara aí é "barra pesada", ali do Parola (favela do Parolin próxima de casa). Comentou ainda que ele andava sumido, provavelmente preso por ser "um gatuno de primeira"...Humpft...

Durante o restante do trajeto até o ponto final, fiquei remoendo coisas dentro de mim. Quantas pessoas perdem a vida por pouca coisa ? Imagina se o cara tá "chapado" e se sente ameaçado por meu instrumento de trabalho, que sequer "invoquei" em minha defesa ? E se ele tá armado, ou coisa parecida ? E se ele realmente estava com más intenções e sentiu-se fraquejar diante do fato de eu possuir uma "arma branca" ? Sorte minha ? Acaso ? Ou ainda, nada a ver ? O rapaz deixou a criminalidade, estava trabalhando mesmo e tudo não passou de um delírio de minha cabeça ?

Desço do busão, é dia de sábado. O centro ainda está sob os efeitos de sexta-feira. Alguns poucos comerciantes (lanchonetes e bares) com as portas abertas (ainda ou iniciando). Uns outros tantos carrinhos de cachorro-quente e, neles, pessoas "forrando" o estômago após (invariavelmente) a longa noitada, regada a muito produto etílico e sacolejos frenéticos em casas de show. Um casal está "namorando" no ponto da linha Água Verde/Abranches. Quer dizer, na realidade eles estão no prelúdio de um ato sexual. Um cheiro forte de urina no ar, produto dos litros e litros de cerveja que a rapaziada deixou pelas paredes dos prédios.

Uma moça-dama (isso, prostituta), de saia preta bem curtinha que chega ao seu umbigo quase, aborda um senhor que caminha na minha frente...sigo, sem olhar para trás e constatar se o dito cujo se deixou encantar pelos atributos da rapariga...Alguns moradores de rua estão acordando embaixo das marquizes de prédios comerciais, Bancos, empresas Públicas, onde buscaram refúgio ao frio da madrugada em Curitiba. A maioria eu já "conheço". Todos os dias, nestes últimos meses, os vejo guardando seus cobertores surrados, papelões que serviram de colchão, e outros tantos "trecos" em sacolas, ou mesmo malas de lona.

Nas calçadas, uma infinidade de pombos. Isso, pombos mesmo, aqueles columbiformes também chamados de pombo-das-rochas, ou pombo-comum mesmo, e que infestam a nossa cidade. Não tenho nada contra os bicudinhos, nada...mas, não tendo predadores naturais e se reproduzirem rapidamente, passaram a ser um seríssimo problema de Saúde Pública. Até recentemente 57 doenças eram catalogadas como transmitidas pelos pombos, tais como: histoplasmose, salmonella, criptococose

Sigo meu caminho, cruzo com uma dúzia de jovens (rapazes e moças), todos alcoolizados, fazendo uma algazarra danada. Uma moça que andava próxima a mim, olha para trás, balança a cabeça negativamente, e segue também seu caminho; veste agasalho de um Colégio tradicional no centro ( o Marista Santa Maria) e certamente está "desconcertada" com as atitudes daquela turba, que possui a mesma idade que ela, mas muito menos juízo por certo.

Mais adiante, um casal dorme profundamente dentro de um carro. Janelas abertas (apesar do frio) e, do lado de fora, uma garrafa vazia de Vodka, e algumas latas de cerveja. Olhando para a "cena", e percebendo a fragilidade da situação - convite certo para um roubo - volto a lembrar do rapaz no ponto do Guilhermina, e apresso meu passo. Já são seis e meia, e pretendo ainda ajeitar os check-out da Loja do Mercadorama antes de sua abertura as sete da manhã...

4 comentários:

Cristina Lira disse...

OLá Nando...
Nossa!!!!!
Quantas coisas pra contar num percurso...rs... ignorante o moço lá né? Mas pelo histórico do rapaz, se realmente ele não tivesse culpa no cartorio não teria se manisfetado e agido desta forma tão descontrolada...
Bom, pode ser coisa da minha cabeça, mas penso que no seu ato inocente de verificar o material de trabalho, vc, involuntariamente, fez sua defesa...


Tenha um bom fim de semana Nando, muita paz e bom inicio de mês...
Muitas bençãos pra ti.

Mônica Pereira disse...

Hummm...
Crônicas do dia a dia...Novo estilo.. Gostei...
Guarda o relógioooooooooooooo....Só coloque no trabalho, gente!! kkk
Beijinhos

C. disse...

Gosto do teu jeito de escrever.
Minha amiga que é enfermeira, e sempre trabalhou à noite, foi assaltada várias vezes em ponto de ônibus, assim nessa hora que você fez seu trajeto. Eu sempre achei um dos bons horários dos delinquentes agirem, se cuide Fernando, me disseram Curitiba tá cheio de vandalismo, mais do que o que eu presenciei.

Gostei de passear contigo nas ruas, das descricoes tao familiares... ah que saudade...

Boa noite meu amigo!

C. disse...

O último lugar que eu morei aí foi ali na Rua Dr. Pedrosa, e dava 21hs já nao dava mais para andar por ali. Eu vinha do (segundo) trabalho à noite e ficava morrendo de medo sempre. Depois então que li na Veja que as esquinas que eu morava era o maior ponto de criminalidade naquela região, o lance foi se fechar dentro de casa...

Eu estranho muito essa liberdade de sair altas horas aqui sem preocupação, como nao podia deixar de ser, acabo sempre sendo cuidadosa, mas pelo que vejo nao tem porquê. Que realidade boa a deles nao?
Queria muito que aí fosse assim.

Beijo!

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